É assim:
Outrora morna e límpida;
Hoje fervente.
Já deverias ter te acostumado com como as coisas são.
Pois te encontrarei: não adianta fugires.
Qualquer que seja o teu refúgio, quaisquer que sejam os obstáculos e quão elaborada for a fortaleza que construíres, nada te livrarás. Pois contornarei com leveza cada mínima fresta estreita que deixares descoberta.
E então permearei por todos os teus poros, penetrarei escaldante teu corpo gota a gota, retorcendo-te, arrancando-te tudo o que já não será mais. Dissolverei-te em alma e restos.
Não guardes mágoa:
Guardes tua língua.
Sou água
Sou vida.
Apenas vida.
E tu que lês! Tens sede?
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(originalmente em http://clubeliterariodecachoeirinha.blogspot.com/2007/09/gua-por-diego-gf.html)
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
O Curta
I
Dia e noite, Daniel pensava nos detalhes e recursos que empregaria em seu novo curta-metragem. Não seria, para ele, um curta-metragem como os outros que já havia roteirizado e dirigido. Era, antes disso, uma vingança forjada em forma de ficção; ou uma exorcização, como lhe convinha pensar quando a consciência lhe inquirisse. Mas que inquirir? Já havia um ano que Andréia, sua namorada por 7 anos, havia desfeito o relacionamento.
Os detalhes do dia em que ela desatou o namoro não saíam da cabeça de Daniel. Num sábado chuvoso, em tarde que antecedia um até então programado jantar à noite com outro casal de amigos, Andréia pediu para conversar. "Não quero mais", disse com calma a morena que agora fixava os olhos castanhos nos de Daniel. Não era mais aquele olhar que ele tanto admirava. E o sorriso com o qual ele sempre se encantava nem presente estava. Davam lugar a um olhar e uma expressão em que Andréia transparecia certo pesar ao ter que dizer aquilo. O cuidado ao escolher as palavras, porém, trazia consigo a confirmação de que ela estava certa do que queria. Como nas outras vezes, Daniel esboçou certa argumentação, mas logo cessou e paralisado ficou quando percebeu finalmente que Andréia estava, desta vez, decidida. A partir daí nem o jeito respeitoso e até carinhoso com que ela explicava sua decisão, enumerando as brigas, os gênios díspares demais, o desaparecimento do amor dos primeiros dias, nada era captado com atenção por Daniel. Restou a incompreensão, que atravessou os dias seguintes àquele sábado e logo virou tristeza, para logo se transformar em rancor, que logo teria que ser dissipado. Decidiu, Daniel, fazê-lo em sua arte.
Um ano depois novas idéias não cessavam de aparecer para o roteiro do curta, já tido como pronto mas aberto à alguma alteração enquanto as filmagens de fato não começassem. O curta não teria um grande orçamento, nem era plano de Daniel fazer um superprodução. Os recursos financeiros já tinham sido captados e o relativo sucesso de seu nome no meio cinematográfico facilitava as coisas. Apesar disso, o roteiro escrito trazia muito mais um significado pessoal ao ex-casal do que traria complexidade e originalidade de enredo aos olhos do público. Desta vez, contudo, Daniel não se preocupava em como agradar e surpreender crítica e bilheteria. O alvo era outro. E não poderia faltar uma vírgula que fosse capaz de atingir, ao menos na ficção, o seu alvo. Como na cena do reencontro entre Andréia e Matheus, esse último o nome dado à personagem baseada em Daniel. As cenas finais, pensadas e repensadas:
Os detalhes do dia em que ela desatou o namoro não saíam da cabeça de Daniel. Num sábado chuvoso, em tarde que antecedia um até então programado jantar à noite com outro casal de amigos, Andréia pediu para conversar. "Não quero mais", disse com calma a morena que agora fixava os olhos castanhos nos de Daniel. Não era mais aquele olhar que ele tanto admirava. E o sorriso com o qual ele sempre se encantava nem presente estava. Davam lugar a um olhar e uma expressão em que Andréia transparecia certo pesar ao ter que dizer aquilo. O cuidado ao escolher as palavras, porém, trazia consigo a confirmação de que ela estava certa do que queria. Como nas outras vezes, Daniel esboçou certa argumentação, mas logo cessou e paralisado ficou quando percebeu finalmente que Andréia estava, desta vez, decidida. A partir daí nem o jeito respeitoso e até carinhoso com que ela explicava sua decisão, enumerando as brigas, os gênios díspares demais, o desaparecimento do amor dos primeiros dias, nada era captado com atenção por Daniel. Restou a incompreensão, que atravessou os dias seguintes àquele sábado e logo virou tristeza, para logo se transformar em rancor, que logo teria que ser dissipado. Decidiu, Daniel, fazê-lo em sua arte.
Um ano depois novas idéias não cessavam de aparecer para o roteiro do curta, já tido como pronto mas aberto à alguma alteração enquanto as filmagens de fato não começassem. O curta não teria um grande orçamento, nem era plano de Daniel fazer um superprodução. Os recursos financeiros já tinham sido captados e o relativo sucesso de seu nome no meio cinematográfico facilitava as coisas. Apesar disso, o roteiro escrito trazia muito mais um significado pessoal ao ex-casal do que traria complexidade e originalidade de enredo aos olhos do público. Desta vez, contudo, Daniel não se preocupava em como agradar e surpreender crítica e bilheteria. O alvo era outro. E não poderia faltar uma vírgula que fosse capaz de atingir, ao menos na ficção, o seu alvo. Como na cena do reencontro entre Andréia e Matheus, esse último o nome dado à personagem baseada em Daniel. As cenas finais, pensadas e repensadas:
II
CENA 19 - CASA DE MATHEUS - INT/DIA
Escuta-se alguém tocar a campainha. Matheus abre a porta e vê Andréia, a olhando por alguns segundos.
Ainda à porta ela interrompe o silêncio:
ANDRÉIA: Preciso conversar contigo.
Matheus a faz entrar mas não diz nada. Vai à cafeteira e oferece uma xícara à Andréia que nega
abanando a cabeça.
ANDRÉIA: Por favor, é muito importante, Matheus.
Matheus abre o armário, pega uma xícara e mantém a expressão de indiferença no rosto inalterada.
MATHEUS: Vai falando...
ANDRÉIA: Olha, eu sei que eu errei... Não sei onde eu tava com a cabeça... Por favor! Olha aqui! (levanta e tenta entrar no campo de visão de Matheus, que ainda estava de costas, pegando uma colher na gaveta) Matheus, eu me precipitei em acabar o nosso namoro... Meus dias têm sido um inferno, tu não retorna minhas ligações... Tô há dias querendo falar contigo e tu me ignora... Eu tô... Eu tô passando por cima do meu orgulho, droga!, vindo aqui, me humilhando... Tu quer que eu implore, eu imploro. Tu quer que eu rasteje? Matheus, me escuta!
Matheus segura a colher na mão direita, que por sua vez é segurada por Andréia. Nesse momento ele a olha nos olhos, ainda sério. Andréia começa a chorar.
ANDRÉIA: Matheus, por favor, fala alguma coisa. Olha! Vamos esquecer tudo. A gente se gostava tanto! Todo casal tem seus problemas... Volta pra mim. Eu errei! Não devia ter acabado o namoro!. Entendo que tu tenha ficado magoado... Mas eu chorei tanto naquela noite por já não ter tanta certeza de mais nada... Me precipitei, Matheus. Por favor, Matheus... Eu te amo tanto. (pausa) Fala alguma coisa, Matheus...
Matheus não demonstra comoção alguma. Ainda olhando Andréia nos olhos.
MATHEUS: Andréia: não!
Matheus dá as costas à Andréia e leva a xícara e a colher à mesa onde já está o pote de açúcar.
MATHEUS: E, Andréia, pode levar meu guarda-chuva. Te dou de presente, não precisa vir devolver. Tá chovendo muito.
Câmera sobre a mesa. Em primeiro plano mostra, apenas, a xícara de café à esquerda e o braço esquerdo de Matheus. Ao fundo, desfocada, a porta.
Andréia vai até à porta, chorando.
DESFOCAR: O foco muda para a porta.
Andréia pára por dois segundos antes de abrir a porta, mas não se vira para olhar Matheus. Abre a porta e sai.
A câmera volta a focar a mesa. Matheus coloca o açúcar no café, mexe com a colher. Leva a xícara à boca.
CENA 20 - FRENTE DA CASA DE MATHEUS. EXT/DIA
Chove forte.
Fotografia em preto e branco. Pouca iluminação.
Posição da câmera imóvel durante toda a cena. Mostra a parte inferior da escadaria, de frente. Andréia desce, e seu corpo vai sendo revelado conforme percorre os degraus.
Pára, em pé, por um instante. Câmera alcança do primeiro degrau a pouco abaixo de sua cintura.
Subitamente, Andréia senta sobre o último degrau, chorando. Câmera agora alcança Andréia por inteiro.
Neste momento entra a trilha: "As Flores do Mal", Legião Urbana. A partir do trecho:
Tua indecência não serve mais
Tão decadente e tanto faz
Quais são as regras? O que ficou?
O seu cinismo, essa sedução
Volta pro esgoto, baby
Vê se alguém lhe quer...
O que ficou é esse modelito da estação passada
Extorsão e drogas demais
Todos já sabem o que você faz
Teu perfume barato, teus truques banais
Você acabou ficando pra trás
Neste trecho: Zoom até fechar no rosto de Andréia, chorando convulsivamente. Maquiagem negra borrada.
Porque mentir é fácil demais
Mentir é fácil demais
Mentir é fácil demais
Mentir é fácil demais
Volta pro esgoto, baby
e vê se alguém lhe quer
FADE OUT ao fim da letra da música.
CRÉDITOS (enquanto o restante do arranjo é executado.)
FIM
(À PRODUTORA: Em caso de dificuldades com direitos autorais para a trilha final, tentar "O Mundo É Um Moinho" de Cartola.)
Escuta-se alguém tocar a campainha. Matheus abre a porta e vê Andréia, a olhando por alguns segundos.
Ainda à porta ela interrompe o silêncio:
ANDRÉIA: Preciso conversar contigo.
Matheus a faz entrar mas não diz nada. Vai à cafeteira e oferece uma xícara à Andréia que nega
abanando a cabeça.
ANDRÉIA: Por favor, é muito importante, Matheus.
Matheus abre o armário, pega uma xícara e mantém a expressão de indiferença no rosto inalterada.
MATHEUS: Vai falando...
ANDRÉIA: Olha, eu sei que eu errei... Não sei onde eu tava com a cabeça... Por favor! Olha aqui! (levanta e tenta entrar no campo de visão de Matheus, que ainda estava de costas, pegando uma colher na gaveta) Matheus, eu me precipitei em acabar o nosso namoro... Meus dias têm sido um inferno, tu não retorna minhas ligações... Tô há dias querendo falar contigo e tu me ignora... Eu tô... Eu tô passando por cima do meu orgulho, droga!, vindo aqui, me humilhando... Tu quer que eu implore, eu imploro. Tu quer que eu rasteje? Matheus, me escuta!
Matheus segura a colher na mão direita, que por sua vez é segurada por Andréia. Nesse momento ele a olha nos olhos, ainda sério. Andréia começa a chorar.
ANDRÉIA: Matheus, por favor, fala alguma coisa. Olha! Vamos esquecer tudo. A gente se gostava tanto! Todo casal tem seus problemas... Volta pra mim. Eu errei! Não devia ter acabado o namoro!. Entendo que tu tenha ficado magoado... Mas eu chorei tanto naquela noite por já não ter tanta certeza de mais nada... Me precipitei, Matheus. Por favor, Matheus... Eu te amo tanto. (pausa) Fala alguma coisa, Matheus...
Matheus não demonstra comoção alguma. Ainda olhando Andréia nos olhos.
MATHEUS: Andréia: não!
Matheus dá as costas à Andréia e leva a xícara e a colher à mesa onde já está o pote de açúcar.
MATHEUS: E, Andréia, pode levar meu guarda-chuva. Te dou de presente, não precisa vir devolver. Tá chovendo muito.
Câmera sobre a mesa. Em primeiro plano mostra, apenas, a xícara de café à esquerda e o braço esquerdo de Matheus. Ao fundo, desfocada, a porta.
Andréia vai até à porta, chorando.
DESFOCAR: O foco muda para a porta.
Andréia pára por dois segundos antes de abrir a porta, mas não se vira para olhar Matheus. Abre a porta e sai.
A câmera volta a focar a mesa. Matheus coloca o açúcar no café, mexe com a colher. Leva a xícara à boca.
CENA 20 - FRENTE DA CASA DE MATHEUS. EXT/DIA
Chove forte.
Fotografia em preto e branco. Pouca iluminação.
Posição da câmera imóvel durante toda a cena. Mostra a parte inferior da escadaria, de frente. Andréia desce, e seu corpo vai sendo revelado conforme percorre os degraus.
Pára, em pé, por um instante. Câmera alcança do primeiro degrau a pouco abaixo de sua cintura.
Subitamente, Andréia senta sobre o último degrau, chorando. Câmera agora alcança Andréia por inteiro.
Neste momento entra a trilha: "As Flores do Mal", Legião Urbana. A partir do trecho:
Tua indecência não serve mais
Tão decadente e tanto faz
Quais são as regras? O que ficou?
O seu cinismo, essa sedução
Volta pro esgoto, baby
Vê se alguém lhe quer...
O que ficou é esse modelito da estação passada
Extorsão e drogas demais
Todos já sabem o que você faz
Teu perfume barato, teus truques banais
Você acabou ficando pra trás
Neste trecho: Zoom até fechar no rosto de Andréia, chorando convulsivamente. Maquiagem negra borrada.
Porque mentir é fácil demais
Mentir é fácil demais
Mentir é fácil demais
Mentir é fácil demais
Volta pro esgoto, baby
e vê se alguém lhe quer
FADE OUT ao fim da letra da música.
CRÉDITOS (enquanto o restante do arranjo é executado.)
FIM
(À PRODUTORA: Em caso de dificuldades com direitos autorais para a trilha final, tentar "O Mundo É Um Moinho" de Cartola.)
III
A tarefa de escolher o elenco para o curta apoiaria-se nos mesmos métodos de produções anteriores: a descrição do perfil desejado seria enviada à agência, que por sua vez indicaria atores para um pequeno teste de uma das cenas do roteiro, sob o olhar da equipe de produção e tendo como decisão final a escolha do diretor. Para o papel de Andréia, porém, Daniel decidiu escolher quem ele gostaria que viesse ao escritório de sua produtora para uma entrevista observando um catálogo de atrizes enviado pela agência. Eram fichas com um resumo de experiências profissionais anteriores e um pequeno álbum, três ou quatro fotos, com poses ou registros de atuações. Escolhidas 19 moças, Daniel solicitou que fosse enviada a cada uma delas uma cópia do roteiro do curta na íntegra, e que fossem agendadas a partir da semana seguinte as entrevistas, duas ou três por dia. "É necessário que as atrizes tenham todas as cenas ensaiadas para o teste", observou Daniel no ofício enviado à agência.
Passada uma semana de uma escolha baseada em fotos e rasos perfis era hora de Daniel conhecer ao vivo as aspirantes ao papel de Andréia. Quatro das dezenove moças não confirmaram a entrevista, talvez pelo pouco tempo para ensaiar o texto de uma protagonista (ou antagonista, na cabeça de André), ou quem sabe por estranharem tal exigência. O fato é que seriam agora cinco dias para que Daniel pudesse, em cada um, analisar 3 atrizes. E se deu assim, na bagunça organizada de seu escritório, sem qualquer tipo de registro audiovisual que não o de seu testemunho e observação, que uma a uma foram as atrizes interpretando as cenas pedidas e moldando na face as expressões solicitadas. Daniel prestava atenção em cada detalhe.
"Muito obrigado, qualquer coisa minha produção entra em contato com você, ok?", aperto de mãos respeitoso, e lá se ia o terceiro dia sem que Daniel se satisfizesse com nenhuma das concorrentes. Não que não houvessem boas atrizes. Se para algumas faltava experiência, um talento natural e a desenvoltura para um tipo de teste com potencial tão intimidatório compensavam. Também não era o caso de que fossem de um perfil totalmente adverso ao de Andréia: três delas tinham um rosto muito parecido, inclusive, confirmando o entusiasmo do diretor na hora da escolha entre as fotos no catálogo. Mas faltava alguma coisa. Daniel queria alguém em quem pudesse enxergar a antiga namorada e a este quesito dava mais importância do que à qualidades artísticas ou físicas. Já pensando em abandonar tais exigências e escolher a nova atriz apenas por critérios técnicos, chegava para ele o quinto dia das entrevistas.
IV
Dez horas, manhã de uma quinta-feira, e os olhos de Daniel fitavam a ficha que repousava sobre a mesa com o resumo de uma incipiente carreira. Seria a primeira das três calouras do dia. Era o horário marcado: Daniel pediu à secretária que mandasse a atriz entrar. A moça de cabelos castanhos entrou no escritório com a simpatia de um sorriso familiar e cumprimentou o diretor. Chamava-se Érica e tinha 24 anos, dois a menos que Andréia, mas com o tipo físico semelhante ao desta. Daniel não deixou de reparar a coincidência mas queria saber mais: explicou então em que consistia o teste e quais cenas gostaria de ver interpretadas. Sentada na cadeira do outro lado da mesa, Érica sorriu e com voz mansa pediu que começassem pela cena 3.
- Cena 3? Bom, deixe-me relembrar o texto...
E Daniel folheou o roteiro. A cena consistia em um curto diálogo entre Andréia e Matheus que culminava em uma relação sexual, ainda antes do fim do namoro dos dois.
- Como queira. Há pouco texto neste trecho, mas podes começar por ele e depois fazer as cenas que te pedi.
- Mas não só o texto. Vamos encenar... É uma cena de sexo, não?
Paralelamente sedutores: o mesmo sorriso de antes, que intrigara e encantara Daniel e a aproximação da moça à cadeira onde ele estava.
- Sim, mas não é necessário... É um curta, a cena será rápida e se dará sob sombras. Nudez alguma será mostrada... Poderemos usar até uma dublê de corpo, caso deseje...
- Mas há uma cena de sexo, não?
Mais dois passos de Érica, que agora encontrava-se parada, em pé, logo à frente de Daniel.
- Sim...
- Preciso te convencer que sou a atriz certa pra esse papel...
Entre a incompreensão da atitude inesperada da atriz e a admiração daquele sorriso familiar Daniel pendeu mais para o segundo. Era o sorriso de Andréia - o exato sorriso de Andréia. Agora ele compreendia aquela sensação de reconhecimento. Era como se aqueles lábios e aquela feição fossem mesmo os da ex-namorada, e por algum motivo estivessem na sua frente novamente, depois de tanto tempo, no rosto de Érica. Pouco balbuciou em oposição quando ela desabotoou a blusa revelando os seios. Em pouco tempo já não faria mais qualquer gesto de objeção. Daniel sentia-se como embriagado. A realidade fugia-lhe pouco a pouco, submersa na associação cada vez mais forte à antiga namorada e nas lembranças que vieram lhe visitar. Inebriado, pouco notou do que se precedeu quando Érica já estava ajoelhada, à sua frente, com a cabeça entre suas pernas, lhe envolvendo o membro com sua boca e língua, ensaiando gemidos, pondo em prática muito mais do que a cena descrita no roteiro previa insinuar. Em seu delírio, contudo, Daniel enxergava apenas Andréia. Ela estava ali, com o mesmo sorriso, com o mesmo olhar, com o mesmo sexo. Era capaz de perceber o cheiro da ex-namorada, de sentir a mesma textura de pele ao tocá-la. E essa analogia se devia muito mais à loucura do momento que real correspondência entre os modos das duas mulheres. Érica, inclusive, ouviu em algumas oportunidades Daniel sussurrando o nome de Andréia. Acatando como fantasia, ela se levantou e o puxou pelas mãos. Deu-lhe um beijo demorado, que só serviu para mergulhá-lo ainda mais na ilusão na qual se encontrava. Érica, então, tirou de seu corpo o que ainda restava de roupas: uma saia preta e uma calcinha branca. Reclinou seu tronco para frente, apoiou seus braços sobre a cadeira na qual Daniel estava e afastou as pernas. Olhou para trás, mirando Daniel:
- Vem possuir a tua Andréia...
Daniel continuou sem reconhecer ninguém senão a real Andréia. "Que saudades de ti", pensou consigo, enquanto a alisava na pele macia e clara das coxas, num prelúdio antes de penetrar entre as pernas de Érica. Suaram-se os corpos, elevaram-se os gemidos. Em algum tempo, segurando os cabelos dela, os batimentos cardíacos de Daniel se tornaram mais freqüentes. Tremores pelo corpo acompanharam o aumento do prazer, a respiração passou a ser ainda mais ofegante e o gozo retido foi finalmente dissipado. O relaxamento que se seguiu o deixou paralisado por alguns segundos, e à medida em que buscava um equilíbrio para seu espírito a realidade vinha-lhe sendo descortinada pouco a pouco... Seus músculos foram relaxando, ao momento em que mirou nos olhos de Érica. Ela sorriu, mordeu os lábios de satisfeita e se dirigiu às suas roupas. Daniel finalmente se dava conta, sob um clima de ressaca e revelação, do que realmente havia acontecido.
Com pressa, Daniel vestiu suas roupas e pegou as chaves do carro. Deixou Érica na sala e saiu correndo em direção a seu automóvel. Saiu em disparada: iria procurar Andréia. Teria que falar com ela de qualquer maneira e pediria que reatassem o namoro. Não haveria mais vingança alguma, filme algum, que bobagem! Mudaria seu comportamento com ela. Seria mais atencioso, o que ela pedisse! Pelo seu perdão por qualquer coisa que tivesse feito, imploraria! Rastejaria para tê-la de volta. Se preciso fosse, se humilharia sobre e sob os pés dela...
Ainda no escritório, Érica guardava na bolsa o resto da cartela de camisinhas, sorria e pensava satisfeita no papel de destaque que finalmente conseguira conquistar.
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(originalmente em: http://estavaeu.blogspot.com/2007/08/i-dia-e-noite-daniel-pensava-nos.html)
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
Montanha Sagrada

Montanha Sagrada
Sagrados somos nós, de carne e ossos, que agüentamos dores, angústias e culpa por uma natureza não escolhida;
Santos somos nós que pagamos diariamente por um presente que nunca cessa de ser cobrado;
Divinos somos nós que pouco escolhemos do que gostar ou sentir, e que ainda assim admitimos que tudo é justo, como se a escolha fosse sempre fácil e fria;
Superiores somos nós que sofremos, temos dúvidas, somos ignorantes e fracos;
Especiais somos nós, que saímos de onde não sabemos, por um motivo que não conhecemos, para sentir coisas que não gostaríamos de sentir, e somos inclinados a sentimentos errados, plantados no mundo como uma opção por sabe-se lá que motivo, e dedicar louvores em troca de não receber uma justa punição.
Sagrados somos nós. Nós e a montanha. De onde sai o grito, errado ou certo, fruto de uma natureza não escolhida, incontentável e revoltada:
Mentiroso! Assassino! Demônio!
=======================
(originalmente em: http://fotolog.terra.com.br/dgf:30)
de Repente, o Leão.

O Leão
Nem me lembro de existir
Antes de vir meu presente
Ganhei um leão para cuidar
E como eu fiquei contente!
Quem me deu não sei quem foi
Mas só pode ser do bem
Pode ser alguém como eu
Pode ser um ser do além...
Junto ao bicho, ainda pequeno,
Uma carta e as instruções
Nela regras a seguir:
Justas ordenações.
Pois espero que eu nunca
Desaponte o presenteador
Não cuidando bem do bicho
Que ele deu com tanto amor
Tudo bem que a criação
Do leão custa um bocado
Conto mil os sacrifícios
Pra deixá-lo bem cuidado.
Noutras vezes o leão,
Sem culpa de seu instinto
Me fere e me ameaça
O que me assusta, não vos minto.
Por essas dificuldades
Já pensei em me livrar do leão.
Mas me lembro então da carta
E quão injusta uma objeção.
Confesso que pode ser medo
Prefiro dizer precaução
Pois não sei como o presenteador
Reagiria à minha opção.
E vos digo sem rodeios
Não duvidem disto não:
Posso ter pouco pra mim
Mas pro leão não falta não.
Pois eu acho um absurdo.
Ganhar de graça um presente
Reclamar do bicho, o custo
E tornar-se um descontente.
Está tão bom o nosso papo
Mas não posso mais ficar
Já aceitei ter pouco tempo
Pra pensar em "bem-estar"
Do contrário não tenho como
O leão alimentar.
========================
(originalmente em: http://fotolog.terra.com.br/dgf:25)
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
#2
"Eu me viro", disse a mulher de rosto pouco belo mas de traseiro com generosas curvas, explicando a uma amiga como se sustentava.
Caprichos
Por aquela fêmea de olhos castanhos e pele morena ele fazia tudo. Mas adotar o visual do Chimbinha foi a gota d'água.
Torto, Tolo
Pareço torto, tolo apaixonado
Que diz amar sem nem saber se gosta
Pra me vingar da tua alegria
Fui, em caminho errado, achar resposta
Quase nem pensei
em você. Já faz quase uma semana
Pra tentar me livrar do que há anos
Me prende nesta falta "doce-insana"
Mas é só uma palavra
De qualquer um que fale o seu nome
Que aqui já não me encontro
E o caminho que eu seguia errado, some
Será que é pra sempre?
Será que essa novela não tem fim?
Vingança era mentira
E se é dor até faz bem pra mim
E se é o tal destino
Dizendo que pra longe eu não vou?
Tentei embarcar antes
Mas minha mente nunca acompanhou
Chateio meu amigos
Mas acredito ainda que é amor.
======================
(originalmente em: http://estavaeu.blogspot.com/2007/09/estava-eu-abrindo-velha-caixa-de.html)
Que diz amar sem nem saber se gosta
Pra me vingar da tua alegria
Fui, em caminho errado, achar resposta
Quase nem pensei
em você. Já faz quase uma semana
Pra tentar me livrar do que há anos
Me prende nesta falta "doce-insana"
Mas é só uma palavra
De qualquer um que fale o seu nome
Que aqui já não me encontro
E o caminho que eu seguia errado, some
Será que é pra sempre?
Será que essa novela não tem fim?
Vingança era mentira
E se é dor até faz bem pra mim
E se é o tal destino
Dizendo que pra longe eu não vou?
Tentei embarcar antes
Mas minha mente nunca acompanhou
Chateio meu amigos
Mas acredito ainda que é amor.
======================
(originalmente em: http://estavaeu.blogspot.com/2007/09/estava-eu-abrindo-velha-caixa-de.html)
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