quinta-feira, 14 de junho de 2012

A Pedra

Ainda fraco, o homem começava a se reerguer. Olhos voltados para o chão. Seus ouvidos zuniam em atordoamento. Tonto com a pancada, sua visão embaralhada começava a identificar aos poucos uma pequena poça de sangue que se formava no piso de madeira de seu barco. Pouco mais à frente, enxergou uma pedra, de cerca de oito centímetros de diâmetro. Era a pedra que havia sido atirada e lhe atingira com gravidade a parte esquerda da testa. A embarcação seguia em movimento. De súbito, o homem pegou o pedaço de basalto e fez menção de retribuir o ferimento ao agressor, mas estava sozinho no barco. Por todos os lados enxergava apenas mar, além de alguma neblina em certa distância à frente de onde estava.

Se por este breve intervalo de tempo as ações foram governadas em muito pelos impulsos e instintos do cambaleante tripulante solitário, quando o homem pôde utilizar-se da racionalidade para tentar compreender a situação, encontrou mais dúvidas que entendimento. Não via explicações sobre de onde poderia ter vindo aquela pedra. Consternado, tampouco lembrava ele como viera parar ali naquela parte desconhecida do oceano. Não recordava ter partido de parte alguma, nem planejado ir à parte nenhuma. Faltava-lhe até mesmo a lembrança de ter percorrido o percurso até o local onde se encontrava. Lembrava apenas, mas de forma confusa... de um canto. Talvez de uma mulher. Talvez de uma divindade. Não sabia bem. O zunido irritante ainda lhe perturbava a cabeça, resultado do forte impacto da pedra, que nesse momento ainda estava em suas mãos.

Sem muito compreender sobre a situação em que se encontrava o homem logo teve que abortar sua perplexidade reflexiva quando, por detrás da neblina, viu aos poucos ser revelado um grande rochedo, para onde o barco velejava em grande velocidade rumo à colisão. Com bastante esforço, visto que debilitado, o homem correu o mais rápido que pôde ao timão para, com habilidade e perícia, desviar-se das rochas e do desaparecimento no mar. Quando ainda buscava a estabilização do barco e um novo e livre horizonte, notou perto do rochedo a presença de uma mulher. Uma bela mulher. Com alguma descrença, notou que ao invés de pernas ela possuía uma cauda. Era metade humana, metade peixe; metade razão, metade instinto; metade verdade, metade mentira. Pisinoe - esse era o nome da sereia - cantava, tentando voltar a atrair o homem para a ruína rumo às rochas, mas o pedaço de pedra que o atingira, pelo atordoamento que causara, havia lhe libertado do domínio da controladora de mentes, livrando-o de terrível destino. A sereia então pareceu resignar-se e mergulhou em retirada, disposta a procurar outro a quem enfeitiçar e conduzir ao naufrágio.

Já distante do rochedo, quando se sentiu livre da ameaça de Pisinoe, o navegante solitário percebeu-se perdido naquelas águas por ele nunca antes navegadas. Não possuía referência alguma de localização, o que lhe trouxe mais um grande desafio: o que fazer? Para onde seguir?

Demorou, mas depois de algum tempo, vencendo mares revoltos, tempestades e as incertezas sobre seu futuro, encontrou finalmente a costa e pôde ir para casa.

De tal aventura restou como herança uma grande cicatriz na cabeça, fruto da pedra atirada, cuja origem até hoje ele desconhece. É justamente à pedra, porém, que ele credita com razão sua salvação, pois só assim pôde desprender-se do hipnotizante e traiçoeiro, belo e dissimulado encanto da sereia Pisinoe.

A pedra lhe feriu para libertá-lo.

E à pedra chamaremos Bladenhous.