quarta-feira, 5 de setembro de 2012

mente mente


E volta:

DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
RESISTA!
Resista.

Resista.




Insista.

Insista!








(- Mas... no quê?
- Mente à mente.)




E volta.

sábado, 11 de agosto de 2012

Chute


Detestava estudar:
Mal ia à escola.
Chutou no vestibular,
Agora chuta uma bola.



---
(originalmente em Concurso de Trovas EdiPUC 2011 - contagem de sílabas poéticas fail)

sábado, 14 de julho de 2012

O que não é meu


na multidão,
no anúncio da tv,
no calçada da minha rua,
percebo sorrisos que não são os meus.

em ensaio,
(na volúpia trazida da certeza da morte)
verifico se consigo fazer o mesmo.

não.

sorriso de espanto,
sorriso de medo
sorriso de enfado.
sorriso
sorriso
sorriso.

quantos sorrisos de quanta gente não são os meus?

se escondo meus dentes na mais aguda euforia...
defendo-me do quê?

por detrás da tela luminosa
observo a desenvoltura das gentes.
não é a minha.

examino a sociabilidade.
o tempo percorrido de forma leve
a sábia - pois não objeto de reflexão - aceitação da rotina,
das responsabilidades, do ir adiante.
do sorriso pronto.

não são minhas estas habilidades.

examino os gestos dos que tomam iniciativa.
os admiro
(ou os invejo?)

na tv, um qualquer filme passa
vida de excessos é vida bem vivida - apreendo em erro.

não é a minha.

Qual é a minha?
(Qual é a tua, você, o espelho? Imagem patética!)

Todos têm as suas drogas;
refugio-me nas minhas:

Encho
o copo,
o prato,
a borracha.


mas




vazio














eu

quinta-feira, 14 de junho de 2012

A Pedra

Ainda fraco, o homem começava a se reerguer. Olhos voltados para o chão. Seus ouvidos zuniam em atordoamento. Tonto com a pancada, sua visão embaralhada começava a identificar aos poucos uma pequena poça de sangue que se formava no piso de madeira de seu barco. Pouco mais à frente, enxergou uma pedra, de cerca de oito centímetros de diâmetro. Era a pedra que havia sido atirada e lhe atingira com gravidade a parte esquerda da testa. A embarcação seguia em movimento. De súbito, o homem pegou o pedaço de basalto e fez menção de retribuir o ferimento ao agressor, mas estava sozinho no barco. Por todos os lados enxergava apenas mar, além de alguma neblina em certa distância à frente de onde estava.

Se por este breve intervalo de tempo as ações foram governadas em muito pelos impulsos e instintos do cambaleante tripulante solitário, quando o homem pôde utilizar-se da racionalidade para tentar compreender a situação, encontrou mais dúvidas que entendimento. Não via explicações sobre de onde poderia ter vindo aquela pedra. Consternado, tampouco lembrava ele como viera parar ali naquela parte desconhecida do oceano. Não recordava ter partido de parte alguma, nem planejado ir à parte nenhuma. Faltava-lhe até mesmo a lembrança de ter percorrido o percurso até o local onde se encontrava. Lembrava apenas, mas de forma confusa... de um canto. Talvez de uma mulher. Talvez de uma divindade. Não sabia bem. O zunido irritante ainda lhe perturbava a cabeça, resultado do forte impacto da pedra, que nesse momento ainda estava em suas mãos.

Sem muito compreender sobre a situação em que se encontrava o homem logo teve que abortar sua perplexidade reflexiva quando, por detrás da neblina, viu aos poucos ser revelado um grande rochedo, para onde o barco velejava em grande velocidade rumo à colisão. Com bastante esforço, visto que debilitado, o homem correu o mais rápido que pôde ao timão para, com habilidade e perícia, desviar-se das rochas e do desaparecimento no mar. Quando ainda buscava a estabilização do barco e um novo e livre horizonte, notou perto do rochedo a presença de uma mulher. Uma bela mulher. Com alguma descrença, notou que ao invés de pernas ela possuía uma cauda. Era metade humana, metade peixe; metade razão, metade instinto; metade verdade, metade mentira. Pisinoe - esse era o nome da sereia - cantava, tentando voltar a atrair o homem para a ruína rumo às rochas, mas o pedaço de pedra que o atingira, pelo atordoamento que causara, havia lhe libertado do domínio da controladora de mentes, livrando-o de terrível destino. A sereia então pareceu resignar-se e mergulhou em retirada, disposta a procurar outro a quem enfeitiçar e conduzir ao naufrágio.

Já distante do rochedo, quando se sentiu livre da ameaça de Pisinoe, o navegante solitário percebeu-se perdido naquelas águas por ele nunca antes navegadas. Não possuía referência alguma de localização, o que lhe trouxe mais um grande desafio: o que fazer? Para onde seguir?

Demorou, mas depois de algum tempo, vencendo mares revoltos, tempestades e as incertezas sobre seu futuro, encontrou finalmente a costa e pôde ir para casa.

De tal aventura restou como herança uma grande cicatriz na cabeça, fruto da pedra atirada, cuja origem até hoje ele desconhece. É justamente à pedra, porém, que ele credita com razão sua salvação, pois só assim pôde desprender-se do hipnotizante e traiçoeiro, belo e dissimulado encanto da sereia Pisinoe.

A pedra lhe feriu para libertá-lo.

E à pedra chamaremos Bladenhous.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Quando acordar é bom

Chove.

É noite.

Pais não estão presentes e, lembre-se com terna ira, se meu filho nem nasceu, eu ainda sou o filho. (Porque me convém, né, bem?!)

Há alguns velhos amigos por ali. A visão é meio turva - confio no desapreço geral de quem lê em relação à passagens minuciosamente descritivas para não me lamentar por isso.

Há alguns novos amigos por ali. E por isso também há a instintiva necessidade de se parecer legal, de passar uma boa impressão. De ser aceito. Somos jovens. Todos entre 15 e 40 anos.

Tenho um guarda-chuva. O espaço abaixo da marquise não é suficiente para abrigar as cinco ou seis pessoas que ali estão se protegendo da chuva fria.

- Vamos para o outro lado!

Ofereço carona a alguém que não tenha guarda-chuva. Algum novo amigo aceita. (Aceita-me também como amigo?)

- Cuidado a poça, cara!

Todos molha.

Mas chegamos ao outro lado. E estar do outro lado significa estar agora à frente do que parece ser uma loja com uma das portas de metal entreaberta, deixando escapar alguma luz que vem de dentro. Estará funcionando a esta hora? Devemos entrar?

Entramos. E confirmamos: está aberta e bem iluminada. Estranhamos: não parece haver ninguém.

São cerca de trinta segundos gastos até três de nossos sentidos nos darem conta da peculiar situação: estamos sobre um piso formado de centenas de caixas de frágil e fino cristal, uma ao lado da outra, guardando dentro de cada uma coloridas bonecas de pano. A cada passo que damos, quebramos uma das caixas, tornando o encontro entre pés, cacos e o relevo acidentado formado por bonecas um evento desagradável a todas as partes. Mas, (e eu curto usar "mas" em início de frase) duas conclusões: estamos quebrando os produtos à venda naquela loja; nem por isso paramos de andar (e quebrar) pela loja.

Alguns dos neurônios dos presentes (mas quantos eram?, cinco ou seis?, e quem eram?, qual a importância deles na história?, você leitor quer saber, não é?, afinal largou por alguns minutos jpegs engraçados pra ver letrinha!), pois eu ia dizendo antes de me entregar ao prolixismo que alguns dos neurônios dos presentes finalmente copularam e a primeira hipótese formulada para justificar aquilo tudo já acertou na mosca: a peça da loja estava virada, como se fora girada noventa graus. Daí o fato de, à frente, onde teríamos uma parede, localizarem-se mesas, cadeiras, tapetes, "piso", e tudo o mais que costumeiramente compõe e significa chão.

Tempo para elucubrações ou análises sobre as escolas arquitetônicas contemporâneas foram logo sufocadas já que, em seguida, apareceu um menino gordinho. Corrijo: um menino obeso. Devia ter perto de dez anos de idade, vestia camiseta de listras horizontais (quanto desprendimento!) e tinha cabelo raspado. Apareceu sorridente, de um ponto onde o "piso" não consistia mais em caixas de cristal, mas parede branca.

Por meio de um esforço hercúleo, ondas sonoras percorreram a boca do menino driblando dentes, pedaços de bolacha, língua, saliva, e saem, se não incólumes, ainda em uma forma reconhecível da frase "Venham! Você querem chocolate?"

De que vale a busca de um sentido para tudo aquilo se podíamos comer chocolate? O menino serve a todos, mas continua mastigando sua bolacha recheada integral.

Aparece então a mãe do garoto, a quem logo identificamos como a dona da loja. Fosse ela Helena Bonham Carter esperaríamos, por consequência, a aparição de Johnny Depp e, ok!, é apenas um filme de Tim Burton! Mas ela era bem mais bonita que a atriz; e persistia bela mesmo quando comentou, em modo mal sucedidamente discreto, logo após um protocolar "boa noite", que "vejo que ainda não compraram nada... e ainda quebraram tudo..."

O garoto dá de ombros e continua a adular seus novos amigos:

- Vocês gostam muito de chocolate?

Sou o que primeiro devora por inteiro a deliciosa barra preta e se vê em condições de responder alguma coisa:

- Cara, chocolate é a melhor coisa do mundo. Gosto demais... E tu, não vai comer?

Em sorriso debochado, o garoto responde:

- Melhor não.

A visão de todos começa a ficar embaralhada. A percepção era de que tudo girava de forma caótica, e o efeito visual alucinógeno causado pelo chocolatinho do Diabo só tinha como trilha sonora as gargalhadas de mãe e filho. Pedir socorro, só aumentava a schadenfreude dos anfitriões.







INTERMISSION

















Estou preso. Estou preso em algum lugar. Não consigo me mexer. Não gosto de não conseguir me mexer. Não consigo identificar o que poderia estar me prendendo por que também minha cabeça e meus olhos não se mexem. Estou totalmente imóvel e meu campo de visão capta apenas o que está logo à frente. São apenas borrões, nota-se algum movimento. Também ouço alguns ruídos, mas estes são abafados e não explicam as imagens distorcidas pelo embaçamento, resultado de minha respiração. Difícil deduzir o que ou quem vejo por detrás daquela lâmina de vidro.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Berghof, Davos-Platz

Fatia o dia em prestações - é como pode pagar.

Vence uma hora;
Distrai outra;
Esquece mais uma em seguida.

- Vamos, não desista!

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Testaste cumprir a tudo o que fosse correto.
Perdeste.

Testaste cumprir a tudo o que lhe fosse espontâneo.
Perdeste-te.

Pratica um novo caminho.
Um novo método.
Método!

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Derrota mais alguns minutos com bravura.
Não necessita mais de um sentido; necessita de uma arma!
Erudição, futilidade, devaneio, obrigações compõem o arsenal.

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"Nosso único bem é sempre o Agora, e tão somente isso."

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Desequilibra-se.
Foram alguns segundos? Ou um punhado de horas?

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Sem mais
Dias.
Apenas dia. Apenas hora. Vamos!

- Parecem-te incorretos os próximos trinta minutos?

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Para seguir precisa de um método.

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"Só temos o exato momento, nada mais."

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Paira voz no ar em grotesca provocação, cuspindo-lhe na face:
"- Findam-se os dias ternos!
- Fundam-se os dias eternos!"

Lutam dentro de si díspares resoluções.

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Método.
Método.
Meto todo o passado - e futuro - em pasta velha e ponho fogo.

---

Vamos, mais algumas horas e terás sono.

Amanhã?

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- Mais algumas horas para ti percorreres, meu eterno amor.

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No segundo dia
Desabou miseravelmente ao fim da quarta hora.

terça-feira, 13 de março de 2012

O Frasco de Lavoisier


"Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma"

São muitas as características que podemos atribuir a uma pessoa. Caráter, personalidade ou aparência são formados na mistura destes predicados. Isolar, portanto, um ou outro desses traços, e destacá-los como a marca de alguém, quase sempre é consequência de uma avaliação simplista e, por vezes, maldosamente preguiçosa, sem guardar correspondência com a verdade, sempre muito mais complexa e menos caricatural.

Cometerei este erro agora com Sérgio, em que pese liste quase uma dezena de atributos, na tentativa de traduzir a essência de um ser humano em um curto parágrafo.

Sujeito introvertido, um tanto recluso - embora contasse com bons amigos -, de baixa autoestima, niilista em relação ao que lhe convinha, pessimista na maior parte do tempo, de gestos e palavras previamente medidas, metódico. Sérgio tinha sua vida localizada em um ponto temporal entre a inexperiência e a maturidade; em uma fase de transição que duraria mais do que o "usual", em que pese sua exagerada autocrítica já tivesse identificado essa dificuldade desde antes mesmo de isso virar, de fato, uma falta de sincronia entre o curso de sua vida e o da maioria das outras pessoas.

(Que outras? Quem são os que balizam as marcas do tempo?)

Breve apresentação feita, impõe-se dizer que, no entanto, não será exatamente sobre a personalidade de Sérgio que trataremos a seguir, mas sobre seu corpo.

Joelhos, cabeça e articulações já lhe doíam. Os rins incomodavam de tempos em tempos. Agora uma estranha dor aguda e persistente na região da bacia, mas sobre a qual nenhum exame trazia claro diagnóstico, somava-se a uma tendência a crises de hipertensão, que vinham se tornando cada vez mais frequentes. Sérgio colecionava pequenos ou grandes desprazeres físicos, o que lhe privou de muitos bons momentos de natureza físico-esportivas, por motivos óbvios.

Às debilidades físicas somemos neste momento o desassossego do espírito. Mesmo prazeres intelectuais tornaram-se prejudicados, quando não impossíveis, uma vez que o ânimo já instável por natureza contaminava-se agora pelas dores do corpo. Uma pesada depressão se instaurara. Dias dolorosos; interminavelmente terríveis. O peso da existência por vezes parecia insuportável, mas - apegava-se a isso com o fino fio de otimismo que em si restava - o amanhã sempre traria um outro dia. E de fato traria: outro dia de dores e grave abatimento. Um conjunto de ilusões que voluntariamente Sérgio impusera a si postava-se como a última - e única - razão a colaborar para uma percepção que admitisse algum sentido no ato de viver...

Não desistia, porém, de procurar ajuda na medicina. Foram muitas as consultas, exames e remédios até encontrar, depois de cerca de dois anos, os médicos certos, com os diagnósticos certos e as suas certas prescrições. Do que se seguiu durante o tratamento, separo uma certeza: a maior parte do mérito pela gradual recuperação de Sérgio, física e mentalmente, devia-se a toda aquela química diária que ele ingeria, por intermédio de gotas, cápsulas e comprimidos.

Aqui peço licença e me arrisco até a devanear, com o perdão do leitor, sobre uma possibilidade de comparação entre os efeitos de uma droga terapêutica em um corpo enfermo e as consequências psicológicas (e até químicas) de um grande amor na vida de alguém. Admito que pode soar forçado, mas foquemos, contudo, na relação de barganha envolvida em ambos os processos e percebamos que, em um relacionamento amoroso, as partes naturalmente abdicam de certas coisas em suas vidas para poderem se dedicar à outra pessoa. Assim como no amor, admitimos esses "efeitos colaterais" resultantes porque entendemos, de forma óbvia, que desejamos muito mais viver a situação atual - com o amor ou a cura - do que a anterior, onde não havia reações adversas ou renúncias, mas existiam dores maiores e vazio. Concedo que nesse mesmo ponto, à vista de alguns, a comparação se esgota e transparece inadequação, mas em verdade necessita-se ponderar que, afinal, nada espelharia perfeitamente as consequências do amor. E, mesmo assim, nenhum outro tema se prestou tanto a metáforas em toda a história da expressão humana.

De toda forma, voltemos ao nosso personagem.

Sérgio nunca foi hipocondríaco, e vale reforçar que preferiria não ter de tomar comprimido algum para solucionar ou atenuar suas dores. Drogas controladas, como já citado, são vis negociantes, e como tal não deixam de nos obrigarem a tomar parte em uma indesejável barganha; mas Sérgio não se afligia apenas pelos possíveis efeitos colaterais como também pelo custo financeiro do tratamento, composto de caros remédios; mas as circunstâncias lhe fizeram naturalmente esquecer logo tais lamentos. (Não fossem esses seriam outros maiores!) Com apenas algumas substituições pontuais, contavam-se o número de cinco medicações concomitantes, sendo três para agirem na analgesia das diferentes regiões fragilizadas, uma para regular a pressão arterial e um antidepressivo tricíclico. Esse último atuava de duas maneiras: na forma mais presumível, em que ajudava a controlar o humor do paciente, tanto na hipótese de ser ele, o humor, a causa (como fator psicossomático desencadeador) ou a consequência das dores (em decorrência dos vários limites que elas impunham no dia a dia); e no próprio combate à dor em si, ampliando seu limiar através do aumento da serotonina, que modula as vias senso-perceptivas, sendo que essas, por sua vez, são responsáveis pela transmissão ao cérebro da sensação de dor.

Sérgio encaixou rapidamente em sua rotina os cinco remédios. Alguns deles trouxeram melhora quase que imediata, enquanto outros tiveram resultados positivos por volta de cinco semanas após o início do tratamento. Tudo dentro do previsto pelos médicos. As medicações possuíam formas múltiplas: cápsulas bicolores; gotas transparentemente cínicas em sua amargura; comprimidos brancos vincados, incansáveis conspiradores ao tramarem entre si o melhor modo de escaparem das mãos e caírem no chão. Os diferentes horários e doses prescritas necessitaram no início de anotações nas caixas e frascos dos remédios, onde Sérgio grafava em tamanho grande as três letras iniciais das especialidades médicas que haviam receitado o fármaco. Havia o remédio do reumatologista, o do nefrologista, os dois do neurologista e clínico geral e o do psiquiatra. Assim, Sérgio simplificava a identificação por associação de cada medicamento, sem precisar decorar os confusos nomes de princípios ativos como Cloridrato de Nortriptilina, Oxalato de Escitalopram, Deflazacort e outras obscenidades.

Aos amigos de trabalho, Sérgio revelou que em breve também ao futebol voltaria a comparecer. Os colegas respondiam em tom de brincadeira, espantados com a quantidade de remédios controlados que tomava: "É muita química nesse corpo, Serjão! Te cuida!".

- As minhas químicas estão ajudando muito! Em breve estarei 100%!

O sucesso do tratamento transformou os inicialmente intrusos fármacos em desejáveis e imprescindíveis aliados. Sérgio enxergava com clara segurança que seu bem-estar físico e mental se devia aos medicamentos que tomava diariamente. Graças a eles, podia finalmente levar uma vida, ao menos, quase normal, sem muitas das várias restrições que a dor impunha anteriormente. Pouco pesavam agora os efeitos colaterais: poderia se exercitar mais para manter o peso, dormir mais cedo para satisfazer o aumento do sono, entre outras adaptações, tornadas insignificantes em comparação aos benefícios.

Inicialmente, a dependência de Sérgio em relação aos fármacos - faz-se necessário dizer antes de a narrativa seguir - caracterizava-se muito mais pelos efeitos positivos que produziam, em uma simples relação de causa e efeito, do que por um quadro de vício químico ou mesmo psicológico.

Eram três comprimidos pela manhã, um ao meio-dia e o último antes de dormir.

E foi assim durante pouco mais de meia década.

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Em um dos muitos dias normais, quando o metódico Sérgio iria tomar o último medicamento do dia com a água da janta que restara em seu copo, a surpresa: não encontrou o frasco do remédio receitado pelo psiquiatra. Revisou as três pequenas caixas e o frasco plástico que ocupavam o canto direito de sua mesa de trabalho. Nos pedaços de papel, que por força do hábito diário de anos poderiam já ter sido dispensados, mas que continuara fixando às embalagens com fita adesiva, constavam as reduções "REU", "NEF", "NEU (cefaleia)" e "NEU (pressão)". Faltava o antidepressivo. Olhou embaixo da mesa, atrás do bidê anexo, buscou visualmente em toda a peça pelo frasco branco com as letras iniciais de "psiquiatra", mas nada encontrou.

Sérgio entrou em pânico. Previa as consequências que a falta do remédio poderia trazer em sua vida. Vasculhou os outros cômodos da casa, gaveta por gaveta, armário por armário, sacola por sacola. Transtornado, imaginava cada uma de suas dores voltando. Logo recordava o sentimento de inadequação aos dias, com a depressão que lhe roubara meses e anos voltando e lhe dominando. Já experimentava sinais da antiga angústia naquele momento. Sofá, cozinha, banheiro... Nada. Com a fina lâmina de sensatez que ainda sobrevivia em meio ao ataque de ansiedade e desespero, considerou a hipótese de ter posto fora o frasco no dia anterior por terem chegado ao fim as cápsulas, mas logo abandonou a suposição lembrando que ainda havia o suficiente para dois meses. Isso, por sinal, também explicava a razão de não haver um outro frasco guardado do mesmo remédio, já que Sérgio solicitaria prescrição de nova receita, como sempre, quando faltassem quinze dias para o fim da medicação. De si para si, bradava em inconformado desespero.

O transtorno de Sérgio foi ceder apenas tarde da noite quando, já exausto da busca pelo frasco em todas as partes da casa, sucumbiu à apatia e em seguida ao choro.

- Minha química...

Viria a dormir pouco tempo depois.

Os dias que se seguiram confirmaram em boa parte seus temores. Gradativamente, Sérgio voltou a sentir os mesmos medos e desencantos, as mesmas dores e limitações, o mesmo abatimento. "Fatores psicossomáticos" foi uma expressão bastante utilizada pelo seu psiquiatra como justificativa para a recaída. Até voltar a sentir melhoras em seu quadro, passou-se considerável tempo; mas desse longo período este narrador pouco saberia contar.

Alguns dão conta de que o psiquiatra de Sérgio trocou a medicação mais de uma vez, buscando por uma nova resposta do organismo. Como resultado, não teria sentido qualquer melhora ao ser tratado com algumas substâncias, enquanto que com outras experimentava fases positivas, mas não duradouras.

Há também os que relatam que o psiquiatra de Sérgio simplesmente lhe receitou novamente o mesmo remédio, com mesmo princípio ativo, mas em doses menores e desta vez em comprimidos e não cápsulas. Nessa versão, sua recuperação teria acontecido de forma mais perceptível, em que pese não fosse rápida nem plena.

Não há certeza sobre qual versão expressa a verdade. Não se pode excluir nem mesmo a hipótese de ambas terem ocorrido em momentos diferentes da história.

O que é fato, porém, é que Sérgio não percebera (ou até intuíra, mas não fora capaz de processar tal informação conscientemente naquele momento), que aquele frasco, aquele medicamento, para exposição da fragilidade de uma metáfora por demais inverossímil aos olhos dos leitores mais atentos (e a quem eu mando às favas), aquele remédio, aquele fármaco, aquela química ficara, inadvertidamente, no bolso esquerdo alto de sua camisa, e ali permanecera para sempre.

Para sempre.




sábado, 3 de março de 2012

Barcos não amam

- Por que atracar no porto quando as águas estão tranquilas? O porto pode ter sido segura e confortável morada nos dias de mar turbulento, quando não se podia ir a muito longe e ainda havia o que se cumprir em terra. Quando, porém, as águas finalmente se oferecem plácidas e francas, torna-se muito mais atraente ao barco conhecer novos mares, explorar estuários e navegar livre, sem âncoras ou correntes que lhe prendam, mesmo que o próprio barco, por conveniência, outrora, tenha tomado tais decisões quando as águas eram revoltas e as tarefas no porto eram numerosas.

- Fernando, creio que não tenha compreendido exatamente o que essa pequena explanação marítima tenha a ver com o tema proposto na nossa aula de hoje. Que relação terá ela com "amor"? O que você quis dizer?

- Que barcos não amam, professor.

Segundos de reflexão silenciosa na sala.

- Confesso que não alcanço de pronto sua ideia nebulosa, Fernando, mas antes de lhe pedir que nos explique melhor, me ocorre outra dúvida que há tempos guardo: por que "Fada Bailarina Psi"?

- É um anagrama, professor.

- Ah, é?! Mas de quê?

- Pesquisa, professor.

Fernando levanta e sai em silêncio arrogante, balbuciando em ares psicóticos que odiava advogados e funcionários da RBS, causando um indesejado e inconveniente mal-estar entre os presentes na sala, que nada tinham a ver com os motivos de seu atordoamento explícito.

Minutos depois Fernando recebeu um telefonema feminino, e percebeu o quanto era estúpido e paranoico em suas elucubrações.

Jorro

Anjos ofertam ajuda, mas de todos corro.
Pouco revelo em face: máscara, gorro.
Visto raiva, tristeza; pelo amor escorro.
Busco um inimigo, mas com ninguém concorro.
Inquieto na agonia, à loucura recorro
Escapismo, exagero, excesso, jorro!
Sujo parede, cama, piso, forro!
Contradição então: na metáfora incorro.
Busco plateia atenta à dor que eu percorro.

Quem sabe morro?!

Grito.
GRITO!
GRITO!

Mas não admito
pedir socorro

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Paletó Vermelho

- Anda! Confessa, filho da puta!

- Pelo amor de Deus, eu não disse nada! Já disse!

- "Eu não disse nada. Já disse!" Ficou até engraçada a oposição de ideias, apesar de não ser necessariamente ilógico...hahaha. Mas nada tão engraçado quanto a parte do "amor de Deus".

Nesse momento, "Mister κόκκινος" pede a um de seus "assessores" (por ele assim denominados) que lhe alcançasse um chicote que repousava negro em uma mesa metálica. Junto a ele, um arsenal de outros acessórios utilizados em sessões de sexo sadomasoquista.

Conhecido como Evildid, o dono do local que era uma espécie de boate BDSM estava agora amarrado por grossas cordas a uma barra vertical de pole dance, e mirava alternadamente cada um dos 3 homens que ali estavam. Tomado de medo, instintivamente mantinha-se em grave estado de alerta, buscando antever algum tipo de agressão vinda de um dos seus carrascos, que já haviam o marcado por dezenas de socos, chutes e cotoveladas em todo o corpo há cerca de 3 horas atrás.

- Escuta, seu verme. Essa eu não entendi: pra que uma barra de pole dance numa casa de sadomasoquismo? Isso é mais comum em casas de strip, certo? Digo... Imagino que não combina muito com o clima de um ritual de sadomasoquismo, se é que essa porra tem algo de sensual...

Ao fim do comentário, Mister κόκκινος voltou-se ao prisioneiro, como que esperando o desenvolvimento de um diálogo ou ao menos uma resposta convincente... Depois de alguns segundos de silêncio de parte à parte, fez uma expressão de contrariedade, aliada a um sorriso irônico.

- Bom... Seria muito melhor ter uma gostosa nua de quatro, rebolando sua bunda pra mim e me chamando pra fodê-la. Mas não podemos ter tudo! Quem sabe te surrar a noite toda não me traga algum tipo de prazer nesta noite fria e nesse lugar nojento?

Mister κόκκινος examinou com curiosidade o chicote em suas mãos. Mexeu os ombros para ajeitar o pouco discreto paletó vermelho. Olhou para seu prisioneiro e começou a desferir violentas chicotadas por sobre o corpo já castigado de Evildid.

- Sei que vocês, doentes, ficam nus para apanhar, mas eu, sinceramente, não quero ter essa visão grotesca.

O dono da boate se contorcia de dor, tentando inutilmente se desviar dos golpes. Não se concluía um segundo de intervalo entre uma chicotada e outra. Mister κόκκινος empenhava-se em ser forte e rápido, o que lhe proporcionou em seguida um motivo para lamento, quando percebeu algumas marcas de dobra e certo desalinho em seu paletó.

As roupas que Evildid vestia absorviam boa parte do impacto dos golpes, mas não eram suficientes para evitar o aparecimento de fortes marcas e alguns cortes, ou agravar os hematomas já existentes por todo seu corpo.

Ofegante, Mister κόκκινος cessou cansado aquela torturante sequência, buscando fôlego, recompondo-se dentro de seu paletó, arrumando o cabelo e jogando o chicote longe. Em seguida, a fúria voltava a tomar conta de si, e num impulso ele se aproxima de Evildid, apertando com força seu pescoço, gritando em voz grave:

- Confessa, seu desgraçado! Nós rastreamos suas conversas. Já sabemos que para nós você dizia uma coisa, e para nosso antigo parceiro, outra! Tudo de acordo com seus interesses! Seu traidor maldito! Há muito em jogo e nós não vamos perder mais do que já perdemos!

Silêncio.

Mister κόκκινος percebe em seu lado direito cerca de 5 velas. Pensa por um momento sobre qual seria o corriqueiro uso das mesmas num lugar como aquele. Logo entende, e então pega uma delas enquanto procura em seu bolso esquerdo o isqueiro com o logotipo do Motorhead.

Acende a vela e a aproxima do rosto de Evildid, que entra em desespero.

- Por favor! Por favor! No rosto não!

Mister κόκκινος inclina a vela acima do couro cabeludo de Evildid. O faz de modo que as gotas de cera quente caiam paulatinamente. Evildid abaixa o rosto o quanto pode, menos por dor do que pelo temor que seu carrasco passasse a despejar em sua face o produto da queima da grossa vela azul.

- Escuta aqui seu merda. Há muito mais do que o que gente como você despeja aos montes em porcarias de redes sociais. Se vai comer pão com ervilha - puta que pariu, odeio ervilha! Se vai comer a merda de um pão com maionese e ervilha e sente a necessidade de registrar e avisar a todos o quanto isso lhe fez alegre por uns 3 minutos, não significa que quem não seja um doente exibicionista não esteja fazendo algo útil. Nem só os que fazem propaganda e publicidade de suas vidas existem de fato!

Evildid demonstra incompreensão.

- E outra coisa, seu escroto. Lembre-se disso: "Depois que o barco afunda há sempre alguém que sabe como ele poderia ser salvo, ou porque, afinal, ele afundou..."

Neste momento Mister κόκκινος manda seus dois assessores puxarem a cabeça de Evildid, de modo que seu rosto ficasse voltado para cima. O prisioneiro luta bastante, mas não consegue deter a força dos dois homens, que ameaçavam quebrar seu pescoço se a limitada resistência continuasse. Mister κόκκινος pega uma espécie de máscara negra que havia ali, e que envolvia toda a cabeça mas a mantinha com boa parte descoberta. Consistia-se de fortes tiras de couro que passavam, de um lado a outro, pelas partes de cima e de baixo dos olhos, e que na região da boca trazia uma argola metálica, que foi colocada entre os dentes de Evildid, impedindo-o de cerrá-los. Segurando pela parte que passava pelo lado de trás da cabeça, os dois assessores mantinham a face de Evildid voltada para cima.

Evildid desespera-se; já não conseguia falar ou gritar, apenas gemer, olhando nos olhos de Mister κόκκινος como se pedisse clemência. Mas o pavor deu lugar ao susto, quando seu celular começou a tocar dentro do bolso esquerdo de sua calça. O som metálico paralisou e tomou a atenção por alguns segundos de todos os quatro presentes, reproduzindo uma versão menos elaborada do que a original de uma música, além de não contar com a parte vocal, como é característico.

Mister κόκκινος, que num primeiro momento mirava com fúria os olhos de seu prisioneiro, deteve-se a olhar para o chão, prestando atenção ao ringtone que continuava tocando. Aquela melodia parecia-lhe familiar. A seriedade deu logo lugar a um sorriso, e ele voltou a erguer a vela, acima da boca de Evildid, tendo como trilha sonora o celular que continuava tocando. Na parte correspondente, Mister κόκκινος cantarolou com entusiasmo e relativa afinação:

- Everybody Hurts...

Sem cortes, o enquadramento da câmera passa a mostrar em plano parado apenas os pés dos quatro homens, acompanhada da música, do cantarolar e de gritos surdos.

PLIM-PLIM

Neste domingo, Didi e sua turma aprontam altas confusões...

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O fato de Reginaldo ter pegado o filme pela metade não o impediu de pensar consigo, aborrecido: só violência gratuita! Que roteiro ridículo! E que diabos foram esses diálogos!?

- Mais um diretorzinho de merda querendo ser Tarantino.

Já eram 2h da manhã e Reginaldo teria que trabalhar no outro dia. Percebeu que não iria pegar no sono vendo televisão, como sempre. Desligou o aparelho, resmungou um pouco, masturbou-se e dormiu após gozar.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O homem nas montanhas

Perdido em terra mas à procura de uma iluminação celestial, o homem seguia a jornada solitária por entre a cadeia de montanhas verdes.

Corria o 13° dia de caminhada, e o jejum já não era um voluntário sacrifício em honra aos Céus, mas uma imposição das circunstâncias, já que as parcas provisões levadas rareavam.


Foi quando o viajante avistou de longe, sentado na margem direita de uma das centenas de montanhas daquela região desconhecida, um homem de túnica.


À medida que ia se aproximando do incógnito homem, o viajante configurava com base no que via a imagem de um senhor idoso, cabelos longos, presumidamente solitário. Mais alguns metros percorridos, sem hesitação ou temor, e se dava conta também de que o velho homem não parecia demonstrar surpresa ou receio pelo aparecimento de outro ser por ali.


Agora com cuidado, o explorador se aproxima do senhor, notando sua veste celestialmente clara, barba branca volumosa, olhar que transmitia serenidade e, como se ao estereótipo dos sábios da ficção se assemelhasse, uma aura de sabedoria estampada em um sorriso cansado mas amigável.


Não pôs-se o jovem explorador, quando enfim ficou logo à frente do sábio (para si a adjetivação tornou-se evidente), a apresentar-se ou a gastar frases mais propícias a uma ocasião como essas. Preferiu perguntá-lo de pronto sobre o real motivo e inquietação que lhe motivou a largar trabalho, família e amigos, e viajar por terras incertas.


- Senhor... Receio que lhe perguntar o sentido da vida não me trará necessariamente conforto... Peço-lhe, então, que me diga: que postura devo eu guardar em minha vida para enfrentar tanta tristeza, tanta tragédia, tanta maldade e tanto pesar?


O senhor de sábias rugas mirava um ponto distante à direita do viajante, mas logo voltou seu olhar ao homem aflito, formando em si um sorriso terno, e esticando o braço até repousar sua mão cansada no ombro do visitante em tom paternal.


- Leve esta mensagem com você para toda a vida: "A vida é uma merda. Deus é um filho da puta. Mas eu não vou deixar que nada disso estrague o dia de hoje."


E o velho homem saiu caminhando, descendo a montanha a passos calmos, até sua figura desaparecer dentro de uma neblina de existência incompreensível para aquela tarde de sol.

Não faça versos

Não faça versos.

Não faça versos a ninguém.

Só faça versos a coisas, objetos
Pedra, sapato, bola de futebol.

A pessoas
Não faça versos.
Não faça homenagens, odes ou declarações.
Nem a favor, nem contra.
Não cometa estes versos.

Dedique palavras, rimas ou não,
Coração, mente, língua, tempo
(Tempo!)
Só dedique versos a coisas.

Entregue seu coração a traduzir caixotes
escrivaninhas
enciclopédias
porta-retratos

Mesmo a armas!

Mas só a coisas
Pois são tão somente coisas
E nunca irão te magoar.

Não façamos versos a ninguém!
É perigoso.

Hoje
E por algum tempo mais

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Conquista

É final de casa cheia
E um menino imaturo
Corre, dribla e muito anseia
Com a conquista e um futuro.


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(originalmente em Concurso de Trovas EdiPUC 2011 - contagem de sílabas poéticas fail)