terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Paletó Vermelho

- Anda! Confessa, filho da puta!

- Pelo amor de Deus, eu não disse nada! Já disse!

- "Eu não disse nada. Já disse!" Ficou até engraçada a oposição de ideias, apesar de não ser necessariamente ilógico...hahaha. Mas nada tão engraçado quanto a parte do "amor de Deus".

Nesse momento, "Mister κόκκινος" pede a um de seus "assessores" (por ele assim denominados) que lhe alcançasse um chicote que repousava negro em uma mesa metálica. Junto a ele, um arsenal de outros acessórios utilizados em sessões de sexo sadomasoquista.

Conhecido como Evildid, o dono do local que era uma espécie de boate BDSM estava agora amarrado por grossas cordas a uma barra vertical de pole dance, e mirava alternadamente cada um dos 3 homens que ali estavam. Tomado de medo, instintivamente mantinha-se em grave estado de alerta, buscando antever algum tipo de agressão vinda de um dos seus carrascos, que já haviam o marcado por dezenas de socos, chutes e cotoveladas em todo o corpo há cerca de 3 horas atrás.

- Escuta, seu verme. Essa eu não entendi: pra que uma barra de pole dance numa casa de sadomasoquismo? Isso é mais comum em casas de strip, certo? Digo... Imagino que não combina muito com o clima de um ritual de sadomasoquismo, se é que essa porra tem algo de sensual...

Ao fim do comentário, Mister κόκκινος voltou-se ao prisioneiro, como que esperando o desenvolvimento de um diálogo ou ao menos uma resposta convincente... Depois de alguns segundos de silêncio de parte à parte, fez uma expressão de contrariedade, aliada a um sorriso irônico.

- Bom... Seria muito melhor ter uma gostosa nua de quatro, rebolando sua bunda pra mim e me chamando pra fodê-la. Mas não podemos ter tudo! Quem sabe te surrar a noite toda não me traga algum tipo de prazer nesta noite fria e nesse lugar nojento?

Mister κόκκινος examinou com curiosidade o chicote em suas mãos. Mexeu os ombros para ajeitar o pouco discreto paletó vermelho. Olhou para seu prisioneiro e começou a desferir violentas chicotadas por sobre o corpo já castigado de Evildid.

- Sei que vocês, doentes, ficam nus para apanhar, mas eu, sinceramente, não quero ter essa visão grotesca.

O dono da boate se contorcia de dor, tentando inutilmente se desviar dos golpes. Não se concluía um segundo de intervalo entre uma chicotada e outra. Mister κόκκινος empenhava-se em ser forte e rápido, o que lhe proporcionou em seguida um motivo para lamento, quando percebeu algumas marcas de dobra e certo desalinho em seu paletó.

As roupas que Evildid vestia absorviam boa parte do impacto dos golpes, mas não eram suficientes para evitar o aparecimento de fortes marcas e alguns cortes, ou agravar os hematomas já existentes por todo seu corpo.

Ofegante, Mister κόκκινος cessou cansado aquela torturante sequência, buscando fôlego, recompondo-se dentro de seu paletó, arrumando o cabelo e jogando o chicote longe. Em seguida, a fúria voltava a tomar conta de si, e num impulso ele se aproxima de Evildid, apertando com força seu pescoço, gritando em voz grave:

- Confessa, seu desgraçado! Nós rastreamos suas conversas. Já sabemos que para nós você dizia uma coisa, e para nosso antigo parceiro, outra! Tudo de acordo com seus interesses! Seu traidor maldito! Há muito em jogo e nós não vamos perder mais do que já perdemos!

Silêncio.

Mister κόκκινος percebe em seu lado direito cerca de 5 velas. Pensa por um momento sobre qual seria o corriqueiro uso das mesmas num lugar como aquele. Logo entende, e então pega uma delas enquanto procura em seu bolso esquerdo o isqueiro com o logotipo do Motorhead.

Acende a vela e a aproxima do rosto de Evildid, que entra em desespero.

- Por favor! Por favor! No rosto não!

Mister κόκκινος inclina a vela acima do couro cabeludo de Evildid. O faz de modo que as gotas de cera quente caiam paulatinamente. Evildid abaixa o rosto o quanto pode, menos por dor do que pelo temor que seu carrasco passasse a despejar em sua face o produto da queima da grossa vela azul.

- Escuta aqui seu merda. Há muito mais do que o que gente como você despeja aos montes em porcarias de redes sociais. Se vai comer pão com ervilha - puta que pariu, odeio ervilha! Se vai comer a merda de um pão com maionese e ervilha e sente a necessidade de registrar e avisar a todos o quanto isso lhe fez alegre por uns 3 minutos, não significa que quem não seja um doente exibicionista não esteja fazendo algo útil. Nem só os que fazem propaganda e publicidade de suas vidas existem de fato!

Evildid demonstra incompreensão.

- E outra coisa, seu escroto. Lembre-se disso: "Depois que o barco afunda há sempre alguém que sabe como ele poderia ser salvo, ou porque, afinal, ele afundou..."

Neste momento Mister κόκκινος manda seus dois assessores puxarem a cabeça de Evildid, de modo que seu rosto ficasse voltado para cima. O prisioneiro luta bastante, mas não consegue deter a força dos dois homens, que ameaçavam quebrar seu pescoço se a limitada resistência continuasse. Mister κόκκινος pega uma espécie de máscara negra que havia ali, e que envolvia toda a cabeça mas a mantinha com boa parte descoberta. Consistia-se de fortes tiras de couro que passavam, de um lado a outro, pelas partes de cima e de baixo dos olhos, e que na região da boca trazia uma argola metálica, que foi colocada entre os dentes de Evildid, impedindo-o de cerrá-los. Segurando pela parte que passava pelo lado de trás da cabeça, os dois assessores mantinham a face de Evildid voltada para cima.

Evildid desespera-se; já não conseguia falar ou gritar, apenas gemer, olhando nos olhos de Mister κόκκινος como se pedisse clemência. Mas o pavor deu lugar ao susto, quando seu celular começou a tocar dentro do bolso esquerdo de sua calça. O som metálico paralisou e tomou a atenção por alguns segundos de todos os quatro presentes, reproduzindo uma versão menos elaborada do que a original de uma música, além de não contar com a parte vocal, como é característico.

Mister κόκκινος, que num primeiro momento mirava com fúria os olhos de seu prisioneiro, deteve-se a olhar para o chão, prestando atenção ao ringtone que continuava tocando. Aquela melodia parecia-lhe familiar. A seriedade deu logo lugar a um sorriso, e ele voltou a erguer a vela, acima da boca de Evildid, tendo como trilha sonora o celular que continuava tocando. Na parte correspondente, Mister κόκκινος cantarolou com entusiasmo e relativa afinação:

- Everybody Hurts...

Sem cortes, o enquadramento da câmera passa a mostrar em plano parado apenas os pés dos quatro homens, acompanhada da música, do cantarolar e de gritos surdos.

PLIM-PLIM

Neste domingo, Didi e sua turma aprontam altas confusões...

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O fato de Reginaldo ter pegado o filme pela metade não o impediu de pensar consigo, aborrecido: só violência gratuita! Que roteiro ridículo! E que diabos foram esses diálogos!?

- Mais um diretorzinho de merda querendo ser Tarantino.

Já eram 2h da manhã e Reginaldo teria que trabalhar no outro dia. Percebeu que não iria pegar no sono vendo televisão, como sempre. Desligou o aparelho, resmungou um pouco, masturbou-se e dormiu após gozar.

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