"Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma"
São muitas as características que podemos atribuir a uma pessoa. Caráter, personalidade ou aparência são formados na mistura destes predicados. Isolar, portanto, um ou outro desses traços, e destacá-los como a marca de alguém, quase sempre é consequência de uma avaliação simplista e, por vezes, maldosamente preguiçosa, sem guardar correspondência com a verdade, sempre muito mais complexa e menos caricatural.
Cometerei este erro agora com Sérgio, em que pese liste quase uma dezena de atributos, na tentativa de traduzir a essência de um ser humano em um curto parágrafo.
Sujeito introvertido, um tanto recluso - embora contasse com bons amigos -, de baixa autoestima, niilista em relação ao que lhe convinha, pessimista na maior parte do tempo, de gestos e palavras previamente medidas, metódico. Sérgio tinha sua vida localizada em um ponto temporal entre a inexperiência e a maturidade; em uma fase de transição que duraria mais do que o "usual", em que pese sua exagerada autocrítica já tivesse identificado essa dificuldade desde antes mesmo de isso virar, de fato, uma falta de sincronia entre o curso de sua vida e o da maioria das outras pessoas.
(Que outras? Quem são os que balizam as marcas do tempo?)
Breve apresentação feita, impõe-se dizer que, no entanto, não será exatamente sobre a personalidade de Sérgio que trataremos a seguir, mas sobre seu corpo.
Joelhos, cabeça e articulações já lhe doíam. Os rins incomodavam de tempos em tempos. Agora uma estranha dor aguda e persistente na região da bacia, mas sobre a qual nenhum exame trazia claro diagnóstico, somava-se a uma tendência a crises de hipertensão, que vinham se tornando cada vez mais frequentes. Sérgio colecionava pequenos ou grandes desprazeres físicos, o que lhe privou de muitos bons momentos de natureza físico-esportivas, por motivos óbvios.
Às debilidades físicas somemos neste momento o desassossego do espírito. Mesmo prazeres intelectuais tornaram-se prejudicados, quando não impossíveis, uma vez que o ânimo já instável por natureza contaminava-se agora pelas dores do corpo. Uma pesada depressão se instaurara. Dias dolorosos; interminavelmente terríveis. O peso da existência por vezes parecia insuportável, mas - apegava-se a isso com o fino fio de otimismo que em si restava - o amanhã sempre traria um outro dia. E de fato traria: outro dia de dores e grave abatimento. Um conjunto de ilusões que voluntariamente Sérgio impusera a si postava-se como a última - e única - razão a colaborar para uma percepção que admitisse algum sentido no ato de viver...
Não desistia, porém, de procurar ajuda na medicina. Foram muitas as consultas, exames e remédios até encontrar, depois de cerca de dois anos, os médicos certos, com os diagnósticos certos e as suas certas prescrições. Do que se seguiu durante o tratamento, separo uma certeza: a maior parte do mérito pela gradual recuperação de Sérgio, física e mentalmente, devia-se a toda aquela química diária que ele ingeria, por intermédio de gotas, cápsulas e comprimidos.
Aqui peço licença e me arrisco até a devanear, com o perdão do leitor, sobre uma possibilidade de comparação entre os efeitos de uma droga terapêutica em um corpo enfermo e as consequências psicológicas (e até químicas) de um grande amor na vida de alguém. Admito que pode soar forçado, mas foquemos, contudo, na relação de barganha envolvida em ambos os processos e percebamos que, em um relacionamento amoroso, as partes naturalmente abdicam de certas coisas em suas vidas para poderem se dedicar à outra pessoa. Assim como no amor, admitimos esses "efeitos colaterais" resultantes porque entendemos, de forma óbvia, que desejamos muito mais viver a situação atual - com o amor ou a cura - do que a anterior, onde não havia reações adversas ou renúncias, mas existiam dores maiores e vazio. Concedo que nesse mesmo ponto, à vista de alguns, a comparação se esgota e transparece inadequação, mas em verdade necessita-se ponderar que, afinal, nada espelharia perfeitamente as consequências do amor. E, mesmo assim, nenhum outro tema se prestou tanto a metáforas em toda a história da expressão humana.
De toda forma, voltemos ao nosso personagem.
Sérgio nunca foi hipocondríaco, e vale reforçar que preferiria não ter de tomar comprimido algum para solucionar ou atenuar suas dores. Drogas controladas, como já citado, são vis negociantes, e como tal não deixam de nos obrigarem a tomar parte em uma indesejável barganha; mas Sérgio não se afligia apenas pelos possíveis efeitos colaterais como também pelo custo financeiro do tratamento, composto de caros remédios; mas as circunstâncias lhe fizeram naturalmente esquecer logo tais lamentos. (Não fossem esses seriam outros maiores!) Com apenas algumas substituições pontuais, contavam-se o número de cinco medicações concomitantes, sendo três para agirem na analgesia das diferentes regiões fragilizadas, uma para regular a pressão arterial e um antidepressivo tricíclico. Esse último atuava de duas maneiras: na forma mais presumível, em que ajudava a controlar o humor do paciente, tanto na hipótese de ser ele, o humor, a causa (como fator psicossomático desencadeador) ou a consequência das dores (em decorrência dos vários limites que elas impunham no dia a dia); e no próprio combate à dor em si, ampliando seu limiar através do aumento da serotonina, que modula as vias senso-perceptivas, sendo que essas, por sua vez, são responsáveis pela transmissão ao cérebro da sensação de dor.
Sérgio encaixou rapidamente em sua rotina os cinco remédios. Alguns deles trouxeram melhora quase que imediata, enquanto outros tiveram resultados positivos por volta de cinco semanas após o início do tratamento. Tudo dentro do previsto pelos médicos. As medicações possuíam formas múltiplas: cápsulas bicolores; gotas transparentemente cínicas em sua amargura; comprimidos brancos vincados, incansáveis conspiradores ao tramarem entre si o melhor modo de escaparem das mãos e caírem no chão. Os diferentes horários e doses prescritas necessitaram no início de anotações nas caixas e frascos dos remédios, onde Sérgio grafava em tamanho grande as três letras iniciais das especialidades médicas que haviam receitado o fármaco. Havia o remédio do reumatologista, o do nefrologista, os dois do neurologista e clínico geral e o do psiquiatra. Assim, Sérgio simplificava a identificação por associação de cada medicamento, sem precisar decorar os confusos nomes de princípios ativos como Cloridrato de Nortriptilina, Oxalato de Escitalopram, Deflazacort e outras obscenidades.
Aos amigos de trabalho, Sérgio revelou que em breve também ao futebol voltaria a comparecer. Os colegas respondiam em tom de brincadeira, espantados com a quantidade de remédios controlados que tomava: "É muita química nesse corpo, Serjão! Te cuida!".
- As minhas químicas estão ajudando muito! Em breve estarei 100%!
O sucesso do tratamento transformou os inicialmente intrusos fármacos em desejáveis e imprescindíveis aliados. Sérgio enxergava com clara segurança que seu bem-estar físico e mental se devia aos medicamentos que tomava diariamente. Graças a eles, podia finalmente levar uma vida, ao menos, quase normal, sem muitas das várias restrições que a dor impunha anteriormente. Pouco pesavam agora os efeitos colaterais: poderia se exercitar mais para manter o peso, dormir mais cedo para satisfazer o aumento do sono, entre outras adaptações, tornadas insignificantes em comparação aos benefícios.
Inicialmente, a dependência de Sérgio em relação aos fármacos - faz-se necessário dizer antes de a narrativa seguir - caracterizava-se muito mais pelos efeitos positivos que produziam, em uma simples relação de causa e efeito, do que por um quadro de vício químico ou mesmo psicológico.
Eram três comprimidos pela manhã, um ao meio-dia e o último antes de dormir.
E foi assim durante pouco mais de meia década.
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Em um dos muitos dias normais, quando o metódico Sérgio iria tomar o último medicamento do dia com a água da janta que restara em seu copo, a surpresa: não encontrou o frasco do remédio receitado pelo psiquiatra. Revisou as três pequenas caixas e o frasco plástico que ocupavam o canto direito de sua mesa de trabalho. Nos pedaços de papel, que por força do hábito diário de anos poderiam já ter sido dispensados, mas que continuara fixando às embalagens com fita adesiva, constavam as reduções "REU", "NEF", "NEU (cefaleia)" e "NEU (pressão)". Faltava o antidepressivo. Olhou embaixo da mesa, atrás do bidê anexo, buscou visualmente em toda a peça pelo frasco branco com as letras iniciais de "psiquiatra", mas nada encontrou.
Sérgio entrou em pânico. Previa as consequências que a falta do remédio poderia trazer em sua vida. Vasculhou os outros cômodos da casa, gaveta por gaveta, armário por armário, sacola por sacola. Transtornado, imaginava cada uma de suas dores voltando. Logo recordava o sentimento de inadequação aos dias, com a depressão que lhe roubara meses e anos voltando e lhe dominando. Já experimentava sinais da antiga angústia naquele momento. Sofá, cozinha, banheiro... Nada. Com a fina lâmina de sensatez que ainda sobrevivia em meio ao ataque de ansiedade e desespero, considerou a hipótese de ter posto fora o frasco no dia anterior por terem chegado ao fim as cápsulas, mas logo abandonou a suposição lembrando que ainda havia o suficiente para dois meses. Isso, por sinal, também explicava a razão de não haver um outro frasco guardado do mesmo remédio, já que Sérgio solicitaria prescrição de nova receita, como sempre, quando faltassem quinze dias para o fim da medicação. De si para si, bradava em inconformado desespero.
O transtorno de Sérgio foi ceder apenas tarde da noite quando, já exausto da busca pelo frasco em todas as partes da casa, sucumbiu à apatia e em seguida ao choro.
- Minha química...
Viria a dormir pouco tempo depois.
Os dias que se seguiram confirmaram em boa parte seus temores. Gradativamente, Sérgio voltou a sentir os mesmos medos e desencantos, as mesmas dores e limitações, o mesmo abatimento. "Fatores psicossomáticos" foi uma expressão bastante utilizada pelo seu psiquiatra como justificativa para a recaída. Até voltar a sentir melhoras em seu quadro, passou-se considerável tempo; mas desse longo período este narrador pouco saberia contar.
Alguns dão conta de que o psiquiatra de Sérgio trocou a medicação mais de uma vez, buscando por uma nova resposta do organismo. Como resultado, não teria sentido qualquer melhora ao ser tratado com algumas substâncias, enquanto que com outras experimentava fases positivas, mas não duradouras.
Há também os que relatam que o psiquiatra de Sérgio simplesmente lhe receitou novamente o mesmo remédio, com mesmo princípio ativo, mas em doses menores e desta vez em comprimidos e não cápsulas. Nessa versão, sua recuperação teria acontecido de forma mais perceptível, em que pese não fosse rápida nem plena.
Não há certeza sobre qual versão expressa a verdade. Não se pode excluir nem mesmo a hipótese de ambas terem ocorrido em momentos diferentes da história.
O que é fato, porém, é que Sérgio não percebera (ou até intuíra, mas não fora capaz de processar tal informação conscientemente naquele momento), que aquele frasco, aquele medicamento, para exposição da fragilidade de uma metáfora por demais inverossímil aos olhos dos leitores mais atentos (e a quem eu mando às favas), aquele remédio, aquele fármaco, aquela química ficara, inadvertidamente, no bolso esquerdo alto de sua camisa, e ali permanecera para sempre.
Para sempre.
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