sexta-feira, 20 de abril de 2012

Quando acordar é bom

Chove.

É noite.

Pais não estão presentes e, lembre-se com terna ira, se meu filho nem nasceu, eu ainda sou o filho. (Porque me convém, né, bem?!)

Há alguns velhos amigos por ali. A visão é meio turva - confio no desapreço geral de quem lê em relação à passagens minuciosamente descritivas para não me lamentar por isso.

Há alguns novos amigos por ali. E por isso também há a instintiva necessidade de se parecer legal, de passar uma boa impressão. De ser aceito. Somos jovens. Todos entre 15 e 40 anos.

Tenho um guarda-chuva. O espaço abaixo da marquise não é suficiente para abrigar as cinco ou seis pessoas que ali estão se protegendo da chuva fria.

- Vamos para o outro lado!

Ofereço carona a alguém que não tenha guarda-chuva. Algum novo amigo aceita. (Aceita-me também como amigo?)

- Cuidado a poça, cara!

Todos molha.

Mas chegamos ao outro lado. E estar do outro lado significa estar agora à frente do que parece ser uma loja com uma das portas de metal entreaberta, deixando escapar alguma luz que vem de dentro. Estará funcionando a esta hora? Devemos entrar?

Entramos. E confirmamos: está aberta e bem iluminada. Estranhamos: não parece haver ninguém.

São cerca de trinta segundos gastos até três de nossos sentidos nos darem conta da peculiar situação: estamos sobre um piso formado de centenas de caixas de frágil e fino cristal, uma ao lado da outra, guardando dentro de cada uma coloridas bonecas de pano. A cada passo que damos, quebramos uma das caixas, tornando o encontro entre pés, cacos e o relevo acidentado formado por bonecas um evento desagradável a todas as partes. Mas, (e eu curto usar "mas" em início de frase) duas conclusões: estamos quebrando os produtos à venda naquela loja; nem por isso paramos de andar (e quebrar) pela loja.

Alguns dos neurônios dos presentes (mas quantos eram?, cinco ou seis?, e quem eram?, qual a importância deles na história?, você leitor quer saber, não é?, afinal largou por alguns minutos jpegs engraçados pra ver letrinha!), pois eu ia dizendo antes de me entregar ao prolixismo que alguns dos neurônios dos presentes finalmente copularam e a primeira hipótese formulada para justificar aquilo tudo já acertou na mosca: a peça da loja estava virada, como se fora girada noventa graus. Daí o fato de, à frente, onde teríamos uma parede, localizarem-se mesas, cadeiras, tapetes, "piso", e tudo o mais que costumeiramente compõe e significa chão.

Tempo para elucubrações ou análises sobre as escolas arquitetônicas contemporâneas foram logo sufocadas já que, em seguida, apareceu um menino gordinho. Corrijo: um menino obeso. Devia ter perto de dez anos de idade, vestia camiseta de listras horizontais (quanto desprendimento!) e tinha cabelo raspado. Apareceu sorridente, de um ponto onde o "piso" não consistia mais em caixas de cristal, mas parede branca.

Por meio de um esforço hercúleo, ondas sonoras percorreram a boca do menino driblando dentes, pedaços de bolacha, língua, saliva, e saem, se não incólumes, ainda em uma forma reconhecível da frase "Venham! Você querem chocolate?"

De que vale a busca de um sentido para tudo aquilo se podíamos comer chocolate? O menino serve a todos, mas continua mastigando sua bolacha recheada integral.

Aparece então a mãe do garoto, a quem logo identificamos como a dona da loja. Fosse ela Helena Bonham Carter esperaríamos, por consequência, a aparição de Johnny Depp e, ok!, é apenas um filme de Tim Burton! Mas ela era bem mais bonita que a atriz; e persistia bela mesmo quando comentou, em modo mal sucedidamente discreto, logo após um protocolar "boa noite", que "vejo que ainda não compraram nada... e ainda quebraram tudo..."

O garoto dá de ombros e continua a adular seus novos amigos:

- Vocês gostam muito de chocolate?

Sou o que primeiro devora por inteiro a deliciosa barra preta e se vê em condições de responder alguma coisa:

- Cara, chocolate é a melhor coisa do mundo. Gosto demais... E tu, não vai comer?

Em sorriso debochado, o garoto responde:

- Melhor não.

A visão de todos começa a ficar embaralhada. A percepção era de que tudo girava de forma caótica, e o efeito visual alucinógeno causado pelo chocolatinho do Diabo só tinha como trilha sonora as gargalhadas de mãe e filho. Pedir socorro, só aumentava a schadenfreude dos anfitriões.







INTERMISSION

















Estou preso. Estou preso em algum lugar. Não consigo me mexer. Não gosto de não conseguir me mexer. Não consigo identificar o que poderia estar me prendendo por que também minha cabeça e meus olhos não se mexem. Estou totalmente imóvel e meu campo de visão capta apenas o que está logo à frente. São apenas borrões, nota-se algum movimento. Também ouço alguns ruídos, mas estes são abafados e não explicam as imagens distorcidas pelo embaçamento, resultado de minha respiração. Difícil deduzir o que ou quem vejo por detrás daquela lâmina de vidro.

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