sexta-feira, 7 de março de 2014

Estava eu... pollockiando


Vê este espaço em branco isolado aqui no canto...
Vai sendo engolido, perdendo sua pureza no amarelo... E as outras cores vão tomando conta do resto da tela...

O fundo é mesmo um céu azul bem chavão: celeste, claro, muitas nuvens bem delineadas, quase infantilmente pintadas. Mas as nuvens não são tão brancas. Misturo com um pingo de preto. Só um pingo é o bastante.

O que está em cima é o que importa: o vermelho cuspido, o azul-escuro derramado direto da lata, o preto manchando todos os cantos... Quase todos. Pincéis? Não.

Ora, não me venha com suas ideias preconcebidas de como as coisas deveriam ser... Isso pode ser um monte de borrões incompreensíveis pra você mas pra mim faz sentido.

É como eu faço.

Olhe essa outra tela. Sim: tinta preta em todos os cantos. Todos.
Como não faz sentido? Passe a mão por sobre a tela. São diferentes tipos de tinta, pois sinta, formando um relevo, um relevo do que está por trás disto, o que ficou encoberto, o que não importa mais, o que foi esquecido por algum momento e assim ficou.

É como eu sei fazer.

=-=-=-=-=-=--=-=--=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-===-----=-=-=-

---
(originalmente em Estava Eu)

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Versículo apócrifo do dia



"Não sejais o tolo estepe dos que temem ficar ajorjadinhos. 
Sois mais valorosos que isso, posto que os que vos exploram de tal forma não amam a ninguém, senão a si mesmos.” 

(Dieguegeefias, 13:08)

=========================================

(no terceiro dia [porra, até que enfim!], quebrou o frasco. E ressuscitou.) 

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Viver é uma dádiva.





===
Viver é uma dádiva. 
Por isso, agradeça cada minuto! :)))

São poucos e simples os
ingredientes para a felicidade:

faça o que não quer fazer;
coma o que não quer comer;
aceite o que não quer aceitar;
sinta o que não quer sentir.

{o avesso é >
imoral,
inconveniente,
inadequado,
irresponsável,
inútil: impossível;

com onerosa resposta
de outrem,
do corpo,
da natureza,
de divindades [inventadas (ou não)]}

Chafurde,
ore,
dance,
vomite,
lamba,
inspire.

Esqueça-se!

Controle-se.

Controle-se.



Controle-se.
De novo.

E seja feliz,
meu irmão celestial.

Como não sê-lo? :)
---

Clório Mãnfro Bêbido.

---
(originalmente nos "Facebook da vida")




quarta-feira, 5 de setembro de 2012

mente mente


E volta:

DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
DESISTA!
RESISTA!
Resista.

Resista.




Insista.

Insista!








(- Mas... no quê?
- Mente à mente.)




E volta.

sábado, 11 de agosto de 2012

Chute


Detestava estudar:
Mal ia à escola.
Chutou no vestibular,
Agora chuta uma bola.



---
(originalmente em Concurso de Trovas EdiPUC 2011 - contagem de sílabas poéticas fail)

sábado, 14 de julho de 2012

O que não é meu


na multidão,
no anúncio da tv,
no calçada da minha rua,
percebo sorrisos que não são os meus.

em ensaio,
(na volúpia trazida da certeza da morte)
verifico se consigo fazer o mesmo.

não.

sorriso de espanto,
sorriso de medo
sorriso de enfado.
sorriso
sorriso
sorriso.

quantos sorrisos de quanta gente não são os meus?

se escondo meus dentes na mais aguda euforia...
defendo-me do quê?

por detrás da tela luminosa
observo a desenvoltura das gentes.
não é a minha.

examino a sociabilidade.
o tempo percorrido de forma leve
a sábia - pois não objeto de reflexão - aceitação da rotina,
das responsabilidades, do ir adiante.
do sorriso pronto.

não são minhas estas habilidades.

examino os gestos dos que tomam iniciativa.
os admiro
(ou os invejo?)

na tv, um qualquer filme passa
vida de excessos é vida bem vivida - apreendo em erro.

não é a minha.

Qual é a minha?
(Qual é a tua, você, o espelho? Imagem patética!)

Todos têm as suas drogas;
refugio-me nas minhas:

Encho
o copo,
o prato,
a borracha.


mas




vazio














eu

quinta-feira, 14 de junho de 2012

A Pedra

Ainda fraco, o homem começava a se reerguer. Olhos voltados para o chão. Seus ouvidos zuniam em atordoamento. Tonto com a pancada, sua visão embaralhada começava a identificar aos poucos uma pequena poça de sangue que se formava no piso de madeira de seu barco. Pouco mais à frente, enxergou uma pedra, de cerca de oito centímetros de diâmetro. Era a pedra que havia sido atirada e lhe atingira com gravidade a parte esquerda da testa. A embarcação seguia em movimento. De súbito, o homem pegou o pedaço de basalto e fez menção de retribuir o ferimento ao agressor, mas estava sozinho no barco. Por todos os lados enxergava apenas mar, além de alguma neblina em certa distância à frente de onde estava.

Se por este breve intervalo de tempo as ações foram governadas em muito pelos impulsos e instintos do cambaleante tripulante solitário, quando o homem pôde utilizar-se da racionalidade para tentar compreender a situação, encontrou mais dúvidas que entendimento. Não via explicações sobre de onde poderia ter vindo aquela pedra. Consternado, tampouco lembrava ele como viera parar ali naquela parte desconhecida do oceano. Não recordava ter partido de parte alguma, nem planejado ir à parte nenhuma. Faltava-lhe até mesmo a lembrança de ter percorrido o percurso até o local onde se encontrava. Lembrava apenas, mas de forma confusa... de um canto. Talvez de uma mulher. Talvez de uma divindade. Não sabia bem. O zunido irritante ainda lhe perturbava a cabeça, resultado do forte impacto da pedra, que nesse momento ainda estava em suas mãos.

Sem muito compreender sobre a situação em que se encontrava o homem logo teve que abortar sua perplexidade reflexiva quando, por detrás da neblina, viu aos poucos ser revelado um grande rochedo, para onde o barco velejava em grande velocidade rumo à colisão. Com bastante esforço, visto que debilitado, o homem correu o mais rápido que pôde ao timão para, com habilidade e perícia, desviar-se das rochas e do desaparecimento no mar. Quando ainda buscava a estabilização do barco e um novo e livre horizonte, notou perto do rochedo a presença de uma mulher. Uma bela mulher. Com alguma descrença, notou que ao invés de pernas ela possuía uma cauda. Era metade humana, metade peixe; metade razão, metade instinto; metade verdade, metade mentira. Pisinoe - esse era o nome da sereia - cantava, tentando voltar a atrair o homem para a ruína rumo às rochas, mas o pedaço de pedra que o atingira, pelo atordoamento que causara, havia lhe libertado do domínio da controladora de mentes, livrando-o de terrível destino. A sereia então pareceu resignar-se e mergulhou em retirada, disposta a procurar outro a quem enfeitiçar e conduzir ao naufrágio.

Já distante do rochedo, quando se sentiu livre da ameaça de Pisinoe, o navegante solitário percebeu-se perdido naquelas águas por ele nunca antes navegadas. Não possuía referência alguma de localização, o que lhe trouxe mais um grande desafio: o que fazer? Para onde seguir?

Demorou, mas depois de algum tempo, vencendo mares revoltos, tempestades e as incertezas sobre seu futuro, encontrou finalmente a costa e pôde ir para casa.

De tal aventura restou como herança uma grande cicatriz na cabeça, fruto da pedra atirada, cuja origem até hoje ele desconhece. É justamente à pedra, porém, que ele credita com razão sua salvação, pois só assim pôde desprender-se do hipnotizante e traiçoeiro, belo e dissimulado encanto da sereia Pisinoe.

A pedra lhe feriu para libertá-lo.

E à pedra chamaremos Bladenhous.